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07 MAI 2014
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

Mato deixa qualquer casa com jeito de assombrada

“Ah, não, cortaram o mato!”

Pronto, era o fim de uma idéia que eu vinha acalentando há meses para escrever aqui. Uma pena, já tinha até convencido dois amigos a irem comigo durante a noite até a Casa. Terei que esperar uns 30 anos para tentar novamente realizar a Série A Casa. Droga.

Ela fica no número 314 de uma rua com nome de passarinho. É fácil reconhecê-la porque está entre duas mansões com labradores, guaritas e regadores automáticos. A Casa está numa fenda do tempo, algo entre 1900 e a Idade Média. Parece um castelo velho, com sua pequena clarabóia e a fachada de pedra manchada pela infiltração. Não há carro na garagem coberta de folhas secas. Não há placa de imobiliária. Uma luz na sala é a única prova de que, talvez, seres humanos morem lá. No bairro em que os muros têm cerca elétrica, uma cortina semi-cerrada e um pequeno portão de grade resguardam o lugar de olhares curiosos como o meu. E só. Ah, claro, e o mato: um matagal tão grande e descuidado que soterrou um triciclo, sufocou as flores e avança pela calçada. Escoteiros se perderiam naquele mato.

Meu passatempo predileto era tentar decifrar o enigma. Quem mora lá? Por que nunca se vê ninguém, quem sabe uma senhora gorda e diabética ou um casal de velhinhos esquecidos pelos netos? Como conseguem levar a vida enclausurados, sem falar com vizinhos ou receber ligações de telemarketing? E a pergunta crucial: por que raios não cuidam daquele jardim?

Foram tantas dúvidas que tramei uma novela só para a Casa. Primeiro, eu escreveria um post com suposições. Uma ex-guerrilheira mora lá. Acha que os militares ainda estão no poder e podem encontrá-la a qualquer momento. Por segurança, não mantém contato com a família. O mato alto serve para encobrir sua plantação de maconha.

O segundo passo seria ir com até lá, durante a noite, e amarrar flores vermelhas de celofane na ponta das folhas de mato – antes que me chamem de desordeira, isso se chama intervenção urbana e não vandalismo. Ela acordaria e, enfim, teria um jardim florido. Talvez aparecesse na janela, surpresa. Talvez até fosse ao portão. Talvez também mudasse de idéia sobre cultivar plantas ilícitas e adotasse um vira-lata.

Agora, está tudo perdido. Ao cortar o mato, o encanto se quebrou e minha série foi pro saco. É duro admitir, mas não se pode mais acreditar em bruxas. É a morte das fábulas. Vai ver, amanhã a Casa aparece pintada de branco. Uma tristeza.
02 ABR 2014
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

O incrível jardim que brota do cimento

Tiradentes é uma das duas únicas cidades lentas do Brasil – a outra fica no Sul. Aqui, uma slow city, pratica-se o slow food e o slow service. Aliás, tudo é slow: o sol aparece, mas demoooora, a comida chega, mas cuuuusta, e o dedinho de prosa, então, vixemaria, não acaba nunca. Com suas portas coloridas e paredes caiadas, Tiradentes parece um vilarejo perdido no tempo. Até charrete anda devagar, sempre com um vira-lata fazendo a escolta.

Com o tempo naquele chove-não-molha e as pousadas praticamente vazias, comecei a observar a cidade de um jeito bem slow. Tiradentes está sendo repovoada aos poucos, mas não por ex-empresários estressados e gente da capital. São as samambainhas que estão se enfiando em cada pórtico, vão, fresta, rachadura, friso, telha, trinca e buraquinho da cidade. Enquanto os corretores perdem tempo fazendo especulação imobiliária – há montes de casas há venda, as menorzinhas por R$ 700 mil –, as samambainhas vão se instalando sorrateiras. Sem fazer alarde. Bem mineiras, elas.
26 MAR 2014
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

Como a natureza lida com nossos rastros

Apocalipse. Fim dos tempos. Revolta da natureza. Tenho ouvido muito as pessoas comentarem sobre a maneira violenta como o planeta revida às agressões que vem sofrendo há milhões de anos. Os culpados somos nós: do rapaz que joga latinha pela janela do carro à criança que escova os dentes com a torneira aberta, cada ser humano terá sua quota de eco expiação.

Não duvido dessa teoria, mas acho que a natureza não paga na mesma moeda. O equilíbrio ecológico de fato é delicado, mas, ante tudo o que este planetinha azul já sofreu, a resposta até que é branda, eventualmente dolorosa, mas, às vezes, quase poética. Mesmo a mais poluída das cidades, uma vez abandonada pelo ser humano, em algumas décadas está novamente coberta de verde.

Alguns anos atrás, em São Pedro da Aldeia (RJ), onde meu marido fez a foto que ilustra este post. Perto da pousada em que ficamos há uma pequena praia que vivia cheia de lixo – despejado pelos próprios pescadores locais. De pote de 500g de margarina a sapato de salto, encontramos de tudo um pouco no meio da areia. Obstinado, o mar cobre o lixo diariamente com pequenas conchinhas brancas.

Trepadeiras revestem até tanques de guerra se lhes for dada a munição do tempo.
12 MAI 2013
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

O lembrete

— O que é que você tanto fotografa aí no chão?

Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma infiltração na parede e que eu tirava fotos dela. “De uma infiltração?” Sorri de novo. “Elas ficam lindas quando transformadas em quadros, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.

Meu amigo Gonzalo Cárcamo, um dos aquarelistas mais geniais que conheço, é perito nesse tipo de fotos. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele guardou por meses: a ideia dele era pintar os tons da fruta em decomposição, mas a moça não entendeu o lance de natureza morta e uma provável obra prima foi parar no lixo. Ainda bem que a abóbora aí da aquarela acima foi poupada: Cárcamo acompanha há um ano a mudança de cores e texturas que os fungos e bactérias promovem no legume, registrando tudo em belíssimas composições. Se você não conhece, vale a pena dar uma passada no blog do Mestre.

Eu não tenho nem talento nem paciência para esperar um ano um alimento estragar o bastante para virar arte. Mas gosto de fotografar o que chamo de matinhos guerreiros. A gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca que a umidade deixa nos vasos, toda a paleta de ferrugem que tinge as folhas de um limoeiro, os jardins em miniatura produzidos com afinco pelo bolor. É como se a natureza deixasse claro sua insubmissão ao homem e nos lembrasse que, cedo ou tarde, carro, prédio, gente, rua, tudo sucumbirá ao mato.
04 JAN 2013
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

A planta guerreira

Um par de estranhas folhas verdes apareceu do nada num vaso que estava servindo de berçário para tomates. Era um broto mínimo, com folhas de bordas serrilhadas bem diferentes das outras mudas. Quando atingiu dez centímetros, já disputava a tapa o pouco de sol que os grandes tomateiros esnobavam. A garra da plantinha me sensibilizou tanto que comecei a dar especial atenção ao vaso, preocupada em dividir em lotes iguais terra, água e calor.

Comecei a desconfiar do caráter da muda quando tentei tirá-la do vaso de tomates e fiquei com a mão cheia de espinhos minúsculos e irritantes. Peguei um jornal para proteger os dedos e fiz força para puxá-la, mas a única coisa que consegui foi derrubar um dos tomateiros. Coloquei o vaso no chão, segurei-o entre os pés e, com uma força de abrir vidro de palmito, consegui tirar a planta – não sem trazer toda a terra e o outro tomateiro junto. Nunca vi uma muda de trinta dias se apegar com tanto afinco a um monte de terra. Ô, plantinha guerreira, sô!

Depois que ganhou um vaso próprio sem raízes concorrentes, a muda deslanchou – e ia ficando ainda mais esquisita, com pequenas brotoejas verdes nascendo junto ao caule cada vez mais lenhoso. Passei dias perguntando nas floriculturas o nome da planta, levando uma folhinha a tiracolo pra tudo que é lugar. Ninguém sabia. Até que meu jardineiro fez a revelação: “Isso aqui é quebradeira-santa”, disse, e cortou o caule com uma tesoura de poda antes de eu esboçar qualquer reação.

Dias depois, encontrei uma família delas crescendo num terreno baldio perto de casa. A muda que eu criava com mimos de orquídea rara não passava de uma erva-daninha. Da pior espécie.

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