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29 JUL 2015
categoria: Minhas raízes

O melhor e mais barato antidepressivo do mundo

Ali não chega o barulho das buzinas. O carteiro não te encontra pra entregar contas a pagar. Seu chefe não aparece para dar bronca, aquela colega invejosa não consegue te atingir. Ali, naquele canto tão sagrado, não há dedos apontados para você. Ninguém te julga, te condena, nada faz você se sentir inferior. Porque ali é seu cantinho verde, seu oásis particular que cabe tanto num quintal enorme quanto num prosaico conjunto de vasinhos.

É pra lá que eu vou quando preciso esfriar a cabeça, quando o dia está difícil, quando me sinto triste. E as plantas sempre me acolhem. Quem vê de fora olha uma mulher cuidando de suas plantas, mas todo amante da natureza sabe que são as plantas quem cuidam da gente. Seus ramos oferecem um abraço, as folhas tremelicando ao vento parecem varrer suavemente o pó dos dias ruins. Aquele falatório interior vai se esvaziando na minha mente e logo estou concentrada num botão que está prestes a florir, vendo as formigas passarem tão apressadas, observando uma gota de água se equilibrando na ponta de uma folha.

Quinze minutos num jardim fazem milagres que nem a ciência duvida mais. Uma pesquisa holandesa mostrou que quanto mais plantas há numa casa ou nas imediações, menor a incidência de depressão, ansiedade, pressão alta e problemas cardíacos. Foram ouvidas 350 mil pessoas para esse estudo, que revelou também que os efeitos de um jardim são ainda maiores em crianças, idosos e na população de baixa renda. Outra pesquisa, nos Estados Unidos, avaliou o impacto que um passeio num parque tem no ser humano: os participantes eram submetidos a vários testes antes e depois de caminharem num jardim botânico. Quem ficou em contato com a natureza por alguns minutos revelou um humor e uma memória melhores do que aqueles que não andaram no parque.

Pesquisas em botânica no Japão, Inglaterra, Escócia e Espanha trazem resultados semelhantes, apontando benefícios até mesmo de as crianças brincarem na terra. É que o solo contém uma bactéria, Mycobacterium vaccae, que reduz a ansiedade e melhora a capacidade de aprendizado ao provocar o crescimento de células produtoras de serotonina. Pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, descobriram que essa bactéria pode ajudar no desenvolvimento cognitivo infantil, desempenhando o papel de um antidepressivo natural. Nem dá pra se surpreender com esses resultados: qualquer adulto que já fez bolinho de terra, que subiu em árvore e colheu fruta no pé, sabe que aquilo, sim, é que é infância boa!

Volto ao meu jardim e deixo que aquele cheiro de terra molhada invada meus pulmões, expulse a fuligem e a poluição da cidade, me renove. Acaricio as folhas do meu pé de capim-limão crescendo tão animado num canteirinho de menos de um metro quadrado – o cheiro cítrico me traz paz. Meus quinze minutos passaram devagar como nuvens sem vento, e eu estou pronta, corpo fechado, para encarar a correria da rotina mais uma vez. Só que agora levo uma floresta inteira dentro de mim.
01 JAN 2014
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

Das raízes aos frutos, como nascem as florestas

Seu Flores nasceu árvore, raízes grossas fincadas na cozinha de terra batida. Cresceu rápido, espreguiçando seus galhos pela sala, atravessando portas, escancarando janelas. Gerou quatro rebentos, uns mais lenhosos, outros mais herbáceos. Em pouco tempo já não cabia na pequena Holambra. Viajou de carona, passou fome, frio, foi atacado por pernilongos enquanto dormia numa manjedoura - mas, madeira de lei que é, mostrou fibra e perseverou.

Em 30 anos, Flores já era uma floresta inteira, com sementes espalhadas em potinhos pela casa, abelhas no teto da sala, um cheiro de café no ar e a terra repleta de frutos, flores e surpresas. Plantava melões, violetas, bulbos – e ipês, cambucis, quaresmeiras. Colheu 86 potes de mel do forro da casa, não sem antes pedir a gentileza de a abelha-rainha levar seu séquito um cadim mais pra direita.

Quando o conheci, logo reparei que as raízes tinham dado lugar a pés e pernas - a árvore se mexia! E levantava 150 quilos num galho só, como se fosse um holandês carregando um fardo de feno fresco. A casa ainda era a mesma que a semente encontrou, mas as estantes agora se vergam sob o peso de livros de botânica em quatro, sete, todas as línguas das plantas.

Seu Flores, agora Flop, semeia florestas. Começou a primeira lá mesmo, no sítio em que nasceu, em Holambra – com um jequitibá que já passa dos 27 metros de altura. Vive esquecendo as chaves, a carteira, o dinheiro para o pedágio - quase na proporção inversa em que lembra os nomes científicos de plantas, suas famílias, seus gêneros, seus usos medicinais.

Gosta de sopa morna, de café novo, de soda cáustica, de lavar louça, de lixar as mãos com um esmeril (!) e de cortar a grama com o trator novo. Mas gosta, sobretudo, de andar descalço. Sabe como é, para não perder as raízes.
10 JUL 2013
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

Como as árvores viajam

Minha avó foi uma cigana moderna: morou em mais cidades do que ouvi falar em todas as aulas de Geografia do Ensino Médio. Viajar para visitá-la era tão freqüente na minha família que eu quase nasci em um trem a caminho de Piracicaba. Mulher de temperamento solar e liberto, ela se cansava das casas com a mesma velocidade que enjoava dos maridos – foi casada três vezes, um escândalo para a época.

“Sua madrinha vai mudar outra vez!”, comentava minha mãe, desapontada, ao fim de um telefonema para São Sebastião, Rio das Pedras, São Paulo, Ilhabela. Nas casas de minha avó sempre havia caixas pelos cantos – algumas iam de um CEP para outro sem jamais serem abertas. Perdi a conta de quanto dinheiro ela gastou com rescisões de contrato de aluguel. Dona Vera simplesmente não criava raízes.

Foi dessa mulher franzina, mas poderosa, que herdei o gosto por viajar – além de uma preguicinha básica para cozinhar. Eu e meu marido não temos salários de cinco dígitos, então, uma rigorosa programação antecede nossas viagens. Como não temos filhos, as pessoas costumam achar que a única coisa com que nos preocupamos é em fazer as malas. Quem me dera!

Tenho quatro gatos e 151 vasos de orquídeas, sem falar na jabuticabeira, na árvore-da-felicidade, no manacá-de-cheiro, na cerejeira japonesa e num animado filodendro, para citar as plantas mais beberronas de água. Alimentar essa fauna e flora não é moleza: os gatos consomem 4 kg de ração por mês e as verdinhas são regadas diariamente – sim, faça chuva ou faça sol, já que a água que cai do céu mal dá conta de umedecer a terra do canteiro.

Vivo buscando truques para manter bichos e plantas bem cuidados mesmo que à distância. E criei gosto por viagens “verdes”, aquelas onde a paisagem e o contato com a natureza valem o passeio. Aos poucos, descobri que é possível, sim, fazer turismo sem abrir mão de nossos valores e do respeito pelo planeta.

Lá no Jardim Eterno, Dona Vera talvez se anime em saber que sua neta virou uma viajante com raízes.
22 MAI 2013
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

A escalada

– Moça, pelamordedeus, desce daí!
– Ué, por quê?
– Não pode subir na árvore!
– Mas é uma mangueira! Mangueiras foram feitas para se subir nelas. Já reparou que elas têm galhos enormes?
– …
– Tá vendo esse aí embaixo? E depois aquele outro e este aqui onde eu estou? Não tem escada mais segura!
– Se a senhora quer manga, é só pedir na lanchonete. Tem suco de manga no cardápio.
– Arrá! E a garçonete pode subir aqui e eu não?
– Não, ela também não pode. Fazemos o suco com polpas selecionadas e congeladas.
– Com uma baita mangueira aqui do lado? Como é que vocês têm coragem de não pegar aqui do pé?
– É perigoso subir na árvore, moça. E, além disso, a loja não se responsabiliza por queda de clientes.
– Entendo. Afinal, onde já se viu alguém ter a idéia esdrúxula de subir numa árvore, né?
– Exatamente.
– Exatamente nada. Exatamente que você não teve infância, isso sim! Qualquer criança sabe que árvores só existem no mundo pra serem escaladas.
– Moça, por favor, tem gente olhando…
10 MAR 2013

Como fazer a árvore dar fruta dentro de casa

— Moço, preciso de um adubo dos bons.
— Para quê?
— É que tenho uma pitangueira em casa, mas ela não dá fruta.
— Quanto tempo ela tem?
— Ah, um bocado. Só comigo, está há seis anos.
— E dá flor?
— Então, isso que é estranho… Dá flor, mas ela seca e cai. Já viu pitangueira que não dá pitanga?
— Você mora em casa ou apartamento?
— Em apartamento. Ela fica na sala, num vaso bem grande.
— Num vaso?!? Na sala??? Na varanda, né?
— Não, na sala mesmo. Mas fica do ladinho da janela!
— E a janela fica aberta?
— Não, passa a maior parte do tempo fe…
— Fechada. Sabia. Esse é o problema.
— Minha pitangueira não dá fruta porque a janela fica fechada?
— É.
— E se a janela ficasse aberta…
— Escancarada.
— Se a janela ficasse escancarada, eu teria pitangas?
— O bastante para fazer geléia.
— Não sei se peguei direito a coisa…
— Relaxa. Nem tudo está perdido. Sua pitangueira é grande?
— Bate no teto, deve ter uns três metros…
— E dá muitas flores?
— Não sei…
— Você conseguiria contar todas?
— Acho que sim.
— Não são muitas. Compre um pincel macio.
— Um pincel?!?
— Isso. Quando as flores estiverem abertas, passe o pincel nelas. Como se fosse pintá-las. Com cuidado.
— Como se eu fosse pintá-las.
— Exatamente. Passe em quantas conseguir encontrar. Você terá pitangas na próxima florada.
— Mesmo?
— Ah, sem dúvida.
— Só para o caso de o lance da janela e do pincel não ter ficado claro, você poderia me explicar por que tenho de pintar as flores?
— Manja aquele baratinho preto e amarelo chamado abelha?
— Lógico. Eu sei o que é uma abelha.
— E sabe pra quê ela serve além de picar e fazer mel? Ela carrega pólen. Pólen faz flor virar fruta. É tipo um espermatozóide em pó. Como a janela fica fechada, não venta, que é o outro jeito de pintar um clima pra planta. “Um clima”, se é que você me entende…
— Sim.
— Então, como você não deixa a árvore seguir o curso normal da natureza, tem que ir lá e dar uma mãozinha.
— Você está me dizendo que eu tenho de estuprar a flor???
— Meio que por aí.
— Santodeus!
— Pense que você está dando uma força para ela tipo esses sites que juntam casais…
— Tipo Namoro.com?
— Isso! Você dá pra flor justinho o que ela queria. Se ela pudesse, diria "obrigada".
— Hmmm… Quanto lhe devo pela aula de botânica?
— Nada não. Quando você voltar aqui, me traz um pote de geleia de pitanga que tá tudo certo. Firmeza?
24 FEV 2013
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

A árvore de frutas explosivas

– Não coma isso!
– Ué, por quê? É amora. A árvore está carregada…
– Isso aí é porquera, minha filha! Não presta, não.
– Como não? É fruta! Minha mãe sempre diz que fruta faz bem…
– Tá contaminada, menina! Não põe na boca!
– Contaminada? Com quê?
– Com fuligem, poeira, poluição… A gente está perto da Marginal, não tá vendo?
– …
– Essa porquera gruda tudo na fruta e vira uma bomba!
– Wow. Uma bomba?
– É, uma bomba-relógio!
– É uma frutinha tããããããão pequenininha…
– Mas faz mal! Não tá escutando, não? Pára de comer essa porcaria!
– Nhammm, mas está tão boa essa bomba-relógio, hmmm, e mais essa, essa e essa aqui…
29 OUT 2012
tags: árvore

Posse responsável de plantas em vaso

Está para nascer o dia em que as plantas receberão os mesmos cuidados destinados aos bichos de estimação. Como elas não ronronam nem sabem dar a patinha, costumam ser alvo de todo tipo de maus-tratos: definham por falta ou excesso de água, se espremem em vasos pequenos ou esgotam os nutrientes da terra sem que ninguém se dê conta de seu sofrimento. Isso quando não passam a vida toda confinadas a um saguão escuro, a metros de distância da janela mais próxima.

Em lojas, shoppings e escritórios, plantas geram simpatia. Mas, a despeito da pose de comprometimento ecológico, as empresas que têm vasos de maneira tão ostensiva costumam ser as mesmas que se desfazem deles como se fossem meros objetos. Repare como estão sempre floridas as bromélias das praças de alimentação, como despontam as orquídeas nos consultórios médicos, como brilham as folhagens ao lado dos caixas de supermercado. Seria um sinal e tanto de respeito ao meio ambiente não fosse o fato de essas plantas serem trocadas periodicamente – as antigas vão, sumariamente, para o lixo.

Apesar desse cenário triste, não é preciso muito esforço ou dedicação para ter um pouco de verde em seu apartamento ou firma. Aqui vão meus cinco mandamentos da Posse Responsável de Plantas em Vaso:

1 — Plantas não são de plástico
Só tenha um vaso em casa se puder suprir as necessidades básicas de água, luz, terra e nutrientes que qualquer ser clorofilado tem.

2 — Plantas não são descartáveis
Não jogue fora os vasos que perderam as flores. Respeite o ciclo e as características de cada espécie e você terá floradas novas no próximo ano (quem sabe até mesmo antes disso).

3 — Plantas não são brinquedos
Faça podas somente quando for necessário, procurando manter o desenho natural da árvore ou do arbusto. Se tiver dúvidas de como podar, consulte um jardineiro antes de cortar os galhos.

4 — Plantas não são enfeites
Não submeta vaso nenhum a um hall completamente escuro ou a um banheiro sem vitrô nem janela só porque fica bonito. Há espécies que se adaptam aos lugares mais incomuns, mas mesmo elas precisam de um mínimo de luz e ventilação

5 — Plantas não são de ferro
Elas pegam doenças e envelhecem. Proteja-as de ventos, mantenha-as livres de pragas e garanta-lhes uma boa aposentadoria. Elas retribuirão com flores, frutos e sombra fresca.
23 OUT 2012
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

Me espera, sibipiruna!

Assim que dobro a esquina de casa, dou de cara com ela, o tronco se esquivando da sombra projetada pela casa, a copa fazendo um dossel verde para a cama de asfalto, e elas, metade amarelo-gema, metade antenas negras, sintonizando o céu. A sibipiruna. A luz da Mata Atlântica, a árvore de florada tão intensa e bela que suas hastes precisam abrir em metades para não enciumar o sol.

A árvore que levei meses para descobrir o nome e que agora pronuncio com o orgulho do estrangeiro que fala Araçariguama sem gaguejar. São Paulo está amarela, onde a vista alcança, as ruas são sibipirunas impacientes espetadas no alto, sibipirunas melancólicas cobrindo o chão, numa poesia que faxineira nenhuma vê, imagina varrer aquela sujeira logo cedo, e amanhã cai mais um monte, e ai meu deus se venta.

Minha vida dupla de jornalista e jardineira tem me feito olhar as árvores com cobiça, essa ainda não fotografei, nossa, olha aquela ali, como a copa está bonita! Mas e tempo pra sair com a câmera boa, para flanar pelas ruas tropeçando sozinha, andar até ficar com dor no pescoço de tanto olhar pra cima?

Eu dirijo para o trabalho e, todo dia, sigo o mesmo roteiro mental. Puxa, a sibipiruna tá linda, as flores já estão quase na ponta! Não posso passar desse sábado. Nossa, essa casa tem alpínias florescendo! Que bom, ainda não terminaram de abrir, tomara que sábado não chova. Ah, essa trepadeira roxa eu ainda não tenho no álbum, aposto como é figurinha difícil de sair. Mas esses resedás de parzinho estão uma coisa, uma foto da dupla não seria nada mal. Ai, o jasmim-manga vermelho, morri! Será que a dona da casa deixa eu entrar pra fotografar? Caramba, que flor é aquela brotando na frente do hotel? Quando eu vier, vou perguntar na recepção, quem sabe eles podem informar o nome. Não pode passar desse sábado, faz um mês que estou tentando sair para fotografar e nunca dá.

E a coisa segue assim até eu entrar no estacionamento da empresa, subir três andares e dar de cara com ela, oferecendo-se ao clique, a copa roçando o vão do quarto andar, as flores caindo — ai, deus!, já está acabando a florada! —, amarelecendo um Palio, uma Strada, e outro Palio. Me espera, sibipiruna!

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