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22 JAN 2014
categoria: Minhas raízes

Ecoloja doida venderia joaninhas por kg

Vivo pensando em abrir uma loja ecológica. Seria como aquelas farmácias antigas, com um grande balcão de madeira e prateleiras de vidro. Entra uma madame, aflita. Os pulgões estão acabando com o jasmim. Não há motivo para preocupação: vendo joaninha por peso. Custa R$ 5 o quilo, mas você vai precisar de uma infestação num jequitibá para comprar tantas assim. Na vitrine, em uma grande caixa com furinhos, estão milhões de joaninhas esvoaçantes. “Passou um pouquinho de 200 gramas, pode ser?”, eu pergunto, com aquela cara-de-pau de quem sabe muito bem pesar 200 gramas certinho.

A loja ainda tem algumas joaninhas voando esbaforidas quando chega outro cliente. Problemas com a terra do quintal, que está muito dura. Trabalho com minhocas nacionais e americanas. Ele me pergunta qual é a diferença. “As americanas são mais gordas.” Pego o metro e começo a enfileirar as minhoconas, uma mais comprida que a outra. Claro, passa dos 5 metros, mas aí a culpa não é minha. Eu não parto minhocas no meio. Nunca. Ele que leve um pouco a mais.

O terceiro cliente é um avô. Diz que fez uma casa na árvore para os netos e que são os cupins que se divertem. Vou até os fundos da loja e dou um assobio. Devagar, aparecem os tamanduás, um surge de traz de uma árvore, outro, descansa perto dos sacos de alpiste. Pego o mais magrinho no colo e levo para dentro. “Você pode ficar com ele por uma semana. Tem que devolvê-lo escovado, limpo e saudável.” Ele assina o termo de compromisso e vai embora. O tamanduá, feliz da vida, põe a língua para fora e me dá um até logo.
01 JAN 2014
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

Das raízes aos frutos, como nascem as florestas

Seu Flores nasceu árvore, raízes grossas fincadas na cozinha de terra batida. Cresceu rápido, espreguiçando seus galhos pela sala, atravessando portas, escancarando janelas. Gerou quatro rebentos, uns mais lenhosos, outros mais herbáceos. Em pouco tempo já não cabia na pequena Holambra. Viajou de carona, passou fome, frio, foi atacado por pernilongos enquanto dormia numa manjedoura - mas, madeira de lei que é, mostrou fibra e perseverou.

Em 30 anos, Flores já era uma floresta inteira, com sementes espalhadas em potinhos pela casa, abelhas no teto da sala, um cheiro de café no ar e a terra repleta de frutos, flores e surpresas. Plantava melões, violetas, bulbos – e ipês, cambucis, quaresmeiras. Colheu 86 potes de mel do forro da casa, não sem antes pedir a gentileza de a abelha-rainha levar seu séquito um cadim mais pra direita.

Quando o conheci, logo reparei que as raízes tinham dado lugar a pés e pernas - a árvore se mexia! E levantava 150 quilos num galho só, como se fosse um holandês carregando um fardo de feno fresco. A casa ainda era a mesma que a semente encontrou, mas as estantes agora se vergam sob o peso de livros de botânica em quatro, sete, todas as línguas das plantas.

Seu Flores, agora Flop, semeia florestas. Começou a primeira lá mesmo, no sítio em que nasceu, em Holambra – com um jequitibá que já passa dos 27 metros de altura. Vive esquecendo as chaves, a carteira, o dinheiro para o pedágio - quase na proporção inversa em que lembra os nomes científicos de plantas, suas famílias, seus gêneros, seus usos medicinais.

Gosta de sopa morna, de café novo, de soda cáustica, de lavar louça, de lixar as mãos com um esmeril (!) e de cortar a grama com o trator novo. Mas gosta, sobretudo, de andar descalço. Sabe como é, para não perder as raízes.
15 AGO 2013
categoria: Minhas raízes

A mulher que cria plantas dentro de lâmpadas

Juliana acordou um dia com a pontinha do dedo mindinho do pé direito meio verde. Se esforçou para lembrar de alguma pancada, quem sabe um tropeção durante a noite. Nada. Na semana seguinte, seu-vizinho também estava verde – claramente verde e não o roxo esverdeado típico dos hematomas. Juliana não saía de casa sem meias. Em poucos meses, o verde subia pelos calcanhares da jovem professora de fotografia. Então, ela resolveu acabar de uma vez com aquilo: reuniu seus cadernos, pegou a velha câmera compacta e se mandou – de mala, gatos e cuias de cerâmica – para Holambra.

Quando conheci Juliana, a doença já não tinha mais tratamento. Ela colecionava variedades de sálvia e ninhos de passarinho. Há tempos tinha virado vegetariana e não bebia uma gota de café ou álcool "porque o gosto é ruim". Recebia as visitas deixando duas gérberas cor de laranja recém colhidas em cada cômodo e servindo cookies recém assados em guardanapos laranjas com desenhos de gérberas. No banheiro, até o papel higiênico ostentava ilustrações de cactos e joaninhas.

Logo percebi que tudo ao seu redor padecia do mesmo mal. Gambás caíam das árvores como frutas maduras. Árvores caíam no telhado como gambás maduros. Sua pacata gata da cidade se transformara em uma voraz caçadora de ratos e os trazia como troféus para a porta do quarto. Juliana gritava "Periquiiiiitaaaaa" e a cachorra – de nome Cuca – aparecia. E pontualmente às 20h, uma rã menor do que uma moeda de R$ 1 se fazia ouvir pela casa amplificando seu coaxar dentro de um regador de plástico.

A vida de Juliana nunca mais foi a mesma. Num dia, ela resgata o cachorro que caiu num poço. No outro, replanta um lote inteiro de mudas de árvores comidas por vacas. Desde que o verde estacionou na altura de seus joelhos e os pés criaram raízes, Juliana nunca mais deixou de usar Crocs com meias. Para relaxar, lê coisas como "A Elegância do Ouriço" ou "Histórias de Cronópios e de Famas" – junto com guias de identificação de plantas e relatórios ambientais.

Debaixo de todo aquele verde alface, Juliana ainda faz coisas que me deixam bege, como organizar um viveiro inteiro tal qual uma planilha de Excell. "As mudas de cambuci estão na F-35", grita ela enquanto carrega um caminhão com uma floresta ainda criança. Ela aprendeu a manobrar trator, a ler as horas nas nuvens e a falar holandês – só não aprendeu a usar o Facebook porque ele é azul demais.

Hoje, quando olhei bem de pertinho, encontrei um fio de cabelo verde na Juliana. Achei melhor não contar. Não estamos numa boa Lua para podas radicais.

PS: Conheça a Juliana no De Verde Casa
10 JUL 2013
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

Como as árvores viajam

Minha avó foi uma cigana moderna: morou em mais cidades do que ouvi falar em todas as aulas de Geografia do Ensino Médio. Viajar para visitá-la era tão freqüente na minha família que eu quase nasci em um trem a caminho de Piracicaba. Mulher de temperamento solar e liberto, ela se cansava das casas com a mesma velocidade que enjoava dos maridos – foi casada três vezes, um escândalo para a época.

“Sua madrinha vai mudar outra vez!”, comentava minha mãe, desapontada, ao fim de um telefonema para São Sebastião, Rio das Pedras, São Paulo, Ilhabela. Nas casas de minha avó sempre havia caixas pelos cantos – algumas iam de um CEP para outro sem jamais serem abertas. Perdi a conta de quanto dinheiro ela gastou com rescisões de contrato de aluguel. Dona Vera simplesmente não criava raízes.

Foi dessa mulher franzina, mas poderosa, que herdei o gosto por viajar – além de uma preguicinha básica para cozinhar. Eu e meu marido não temos salários de cinco dígitos, então, uma rigorosa programação antecede nossas viagens. Como não temos filhos, as pessoas costumam achar que a única coisa com que nos preocupamos é em fazer as malas. Quem me dera!

Tenho quatro gatos e 151 vasos de orquídeas, sem falar na jabuticabeira, na árvore-da-felicidade, no manacá-de-cheiro, na cerejeira japonesa e num animado filodendro, para citar as plantas mais beberronas de água. Alimentar essa fauna e flora não é moleza: os gatos consomem 4 kg de ração por mês e as verdinhas são regadas diariamente – sim, faça chuva ou faça sol, já que a água que cai do céu mal dá conta de umedecer a terra do canteiro.

Vivo buscando truques para manter bichos e plantas bem cuidados mesmo que à distância. E criei gosto por viagens “verdes”, aquelas onde a paisagem e o contato com a natureza valem o passeio. Aos poucos, descobri que é possível, sim, fazer turismo sem abrir mão de nossos valores e do respeito pelo planeta.

Lá no Jardim Eterno, Dona Vera talvez se anime em saber que sua neta virou uma viajante com raízes.
22 MAI 2013
categoria: Minhas raízes
tags: árvore

A escalada

– Moça, pelamordedeus, desce daí!
– Ué, por quê?
– Não pode subir na árvore!
– Mas é uma mangueira! Mangueiras foram feitas para se subir nelas. Já reparou que elas têm galhos enormes?
– …
– Tá vendo esse aí embaixo? E depois aquele outro e este aqui onde eu estou? Não tem escada mais segura!
– Se a senhora quer manga, é só pedir na lanchonete. Tem suco de manga no cardápio.
– Arrá! E a garçonete pode subir aqui e eu não?
– Não, ela também não pode. Fazemos o suco com polpas selecionadas e congeladas.
– Com uma baita mangueira aqui do lado? Como é que vocês têm coragem de não pegar aqui do pé?
– É perigoso subir na árvore, moça. E, além disso, a loja não se responsabiliza por queda de clientes.
– Entendo. Afinal, onde já se viu alguém ter a idéia esdrúxula de subir numa árvore, né?
– Exatamente.
– Exatamente nada. Exatamente que você não teve infância, isso sim! Qualquer criança sabe que árvores só existem no mundo pra serem escaladas.
– Moça, por favor, tem gente olhando…
12 MAI 2013
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

O lembrete

— O que é que você tanto fotografa aí no chão?

Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma infiltração na parede e que eu tirava fotos dela. “De uma infiltração?” Sorri de novo. “Elas ficam lindas quando transformadas em quadros, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.

Meu amigo Gonzalo Cárcamo, um dos aquarelistas mais geniais que conheço, é perito nesse tipo de fotos. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele guardou por meses: a ideia dele era pintar os tons da fruta em decomposição, mas a moça não entendeu o lance de natureza morta e uma provável obra prima foi parar no lixo. Ainda bem que a abóbora aí da aquarela acima foi poupada: Cárcamo acompanha há um ano a mudança de cores e texturas que os fungos e bactérias promovem no legume, registrando tudo em belíssimas composições. Se você não conhece, vale a pena dar uma passada no blog do Mestre.

Eu não tenho nem talento nem paciência para esperar um ano um alimento estragar o bastante para virar arte. Mas gosto de fotografar o que chamo de matinhos guerreiros. A gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca que a umidade deixa nos vasos, toda a paleta de ferrugem que tinge as folhas de um limoeiro, os jardins em miniatura produzidos com afinco pelo bolor. É como se a natureza deixasse claro sua insubmissão ao homem e nos lembrasse que, cedo ou tarde, carro, prédio, gente, rua, tudo sucumbirá ao mato.
05 MAI 2013
categoria: Minhas raízes
tags: abelha

A fera do aspirador de pó

O trator da limpeza de 1,50 m irrompe no escritório rumo à varanda, com balde, vassoura, rodo, pano, escovão, aspirador de pó e… Êpa, aspirador de pó? Fui pé ante pé ver o que a Val estava aprontando quando a flagro, bravíssima, em cima do bebedouro dos passarinhos, dando golpes no ar com a mangueira do aspirador de pó.

– Val?
– …
– Val! Vaaaaaal!!!
– Chamou, Carol?
– Deeeesliiiiga o aspiradoooor, Vaaaaal!
– Ah, é!
– Val, o que raios você está fazendo com o aspirador, mulher?
– Chupando as abelhas, Carol.
– !
– Você não disse que o beija-flor morre se for picado por abelha? Tô vendo o bichim na maior agonia, voando aqui e ali, mas ele não consegue chegar perto do bebedor porque tá com abelha.
– Val, não vá me dizer que você está chupando as abelhas com o aspirador de pó…
– Ah, tô sim, e já faço isso desde a semana passada. Não reparou que as abelhas deram uma sumida?
23 MAR 2013
categoria: Minhas raízes

Da arte de alimentar uma planta carnívora

– Carol, o que é aquele pacotinho que está na geladeira?
– Hmmm…
– Carol?
– Tô aqui fora!
– O que é que você tá fazendo aí no chão?
– Pegando o almoço do Ták.
– De quem???
– Do Eustáquio.
– Eustáquio?
– Isso. O que você perguntou?
– Tem um pacotinho na geladeira…
– Não mexe na comida dele!
– Comida? Mas é um pacotinho tão pequeno… Tem o quê dentro, uma ervilha?
– Bem que eu queria que fosse… Mas ele não é vegetariano.
– Carol, me desculpe, mas o que é mesmo que você está fazendo?
– Pegando o almoço do Eustáquio. É difícil, elas fogem de mim. E eu não quero matar ninguém. Ele precisa delas vivas. Só que como ainda é pequeno, não consegue comer muito rápido e a comida foge. Por isso, eu botei uma na geladeira, para deixá-la meio grogue. É quase como se ela estivesse anestesiada. Assim é menos cruel.
– Tem formigas na geladeira?!?
– Só uma. Não entre em pânico, eu fechei bem o pacotinho.
– Tem uma formiga viva na geladeira?
– Meio dormindo.
– Eu nunca trabalhei para alguém que guarde formigas vivas em pacotinhos na geladeira para alimentar uma planta-carnívora!
– Tem sempre uma primeira vez…
– Eu quero um aumento.
17 MAR 2013
categoria: Minhas raízes
tags: pragas

Recado a uma lesma: não é nada pessoal, mas...

Estou numa guerra dos infernos com Dona Eufrália e suas filhas. A gente se detesta desde o dia em que nos conhecemos. Durante o dia, ela e sua prole se espalham; à noite, lanterna em mãos, eu as expulso, uma a uma, do meu vaso de petúnia.

Esse é o problema das lesmas: elas se multiplicam muito rápido. Desde que assassinei sem querer o marido de Dona Eufrália, a velha lesma não me deu mais sossego. Comeu todos os brotos da petúnia. Deixou seu visco brilhante por flores e folhas e começou um ardiloso plano de expansão para vasos vizinhos. Peguei uma de suas filhas dois andares abaixo, se preparando para atacar meu cacto preferido.

Gente de coração mole como o meu não consegue diferenciar a vida de uma minhoca da de uma lesma. Para mim, ratos são tão fofinhos quanto esquilos, ainda que tenham maus-modos à mesa. Morcegos são passarinhos noturnos. Hienas são cães que riem. Nenhum bicho vale mais que outro — humanos incluídos.

Só porque não conheço uma função interessante para uma lesma, não vejo porque matá-la. O que Dona Eufrália claramente não entende, dada a raiva com que instrui suas filhas a destruir minhas plantas. Então, toda noite, eu as recolho com uma varetinha, atravesso a rua e deposito, lesma por lesma, no gramado da praça. Já que estamos em guerra, elas que se entendam com os passarinhos.
13 MAR 2013
categoria: Minhas raízes
tags: palmeira

O balé das palmeiras que andam

Segunda-feira cedo, carros por todos os lados, a orquestra de buzinas ensaia seus acordes e meu mau-humor dá o primeiro sinal de vida enquanto levo uma fechada pela segunda vez. O semáforo fica verde e a fila ainda anda mais alguns milímetros antes de parar, os motores quentes sob uma chuva fina que não pára.

Olho pelo vidro embaçado da raiva contida e vejo duas palmeiras dançando ao vento. Mas lá fora não venta. Olho para a garoa que cai num ângulo de 90 graus tão perfeito que não resta dúvida. Nada de vento. Volto às palmeiras, mas elas não estão mais lá: agora, tremelicam suas folhas rasgadas uns vinte metros à minha frente. O semáforo fica vermelho.

Então, elas passam por mim. Com as raízes presas num saco de estopa e os troncos bem amarrados à caçamba de uma picape, as palmeiras parecem moleques brincando na chuva, balançando os braços e espirrando água em redor. O semáforo abre.

Acompanho-as com os olhos o mais que posso, até vê-las sumirem num cruzamento, num gracioso pas de deux.

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