12 MAI 2013
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

O lembrete

— O que é que você tanto fotografa aí no chão?

Dei uma risada quando ouvi o adolescente na bicicleta — em 15 minutos de cliques, ele era a terceira pessoa a me perguntar a mesma coisa. Expliquei que tinha visto uma infiltração na parede e que eu tirava fotos dela. “De uma infiltração?” Sorri de novo. “Elas ficam lindas quando transformadas em quadros, sabia?” Ele deu de ombros e foi embora. Como os outros.

Meu amigo Gonzalo Cárcamo, um dos aquarelistas mais geniais que conheço, é perito nesse tipo de fotos. Já o vi discutir com a faxineira porque ela jogou fora uma jaca podre que ele guardou por meses: a ideia dele era pintar os tons da fruta em decomposição, mas a moça não entendeu o lance de natureza morta e uma provável obra prima foi parar no lixo. Ainda bem que a abóbora aí da aquarela acima foi poupada: Cárcamo acompanha há um ano a mudança de cores e texturas que os fungos e bactérias promovem no legume, registrando tudo em belíssimas composições. Se você não conhece, vale a pena dar uma passada no blog do Mestre.

Eu não tenho nem talento nem paciência para esperar um ano um alimento estragar o bastante para virar arte. Mas gosto de fotografar o que chamo de matinhos guerreiros. A gana com que as samambainhas brotam de fendas e rachaduras, a renda branca que a umidade deixa nos vasos, toda a paleta de ferrugem que tinge as folhas de um limoeiro, os jardins em miniatura produzidos com afinco pelo bolor. É como se a natureza deixasse claro sua insubmissão ao homem e nos lembrasse que, cedo ou tarde, carro, prédio, gente, rua, tudo sucumbirá ao mato.

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