25 JUN 2014
tags: orquídea

Sua loucura por orquídeas virou doença?

Dez anos atrás, quando me apaixonei perdidamente por orquídeas, comecei a fazer toda sorte de coisa imbecil que você possa imaginar. Enfrentei duas horas de karaokê japonês só para comprar plantas mais baratas. Enfiei o dedo em tanta lesma que perdi a conta. Quase fui mordida por uma caranguejeira que dormia sorrateira entre dois vasos recém comprados. Viajei de carro nas posições mais incômodas possíveis só para não estragar a folhagem de uma orquídea. Varei muita madrugada na feira noturna do Ceagesp em busca de uma espécie mais rara, me endividei para pagar uma Vanda e até móvel já doei para ter mais espaço paras minhas meninas.

Nada disso se compara a entrar numa loja agrícola para comprar adubo. Quando você chega nesse ponto, é sinal de que os orquidários já não são o bastante — você agora busca insumos no mesmo lugar que os produtores o fazem, a preços tão mais baixos que os das casas de jardinagem que choro só de imaginar quanto dinheiro gastei de bobeira.

Entrar nesses lugares é como visitar um mundo paralelo. Eles são grandes galpões, com tralhas do chão ao teto, frequentado por fazendeiros e pequenos produtores, toooodos homens. Os atendentes não têm pressa nenhuma, aliás, parece que o relógio local anda mais devagar. Para você ter uma ideia de como a realidade lá é bem diferente da encontra em floriculturas e orquidários limpinhos:

— Oi, o senhor tem adubo Bokashi?
— Tenho.
— Quanto está o pacote?
— Cem reais.
— Cem reais!?! Quantos gramas vêm?
— Gramas? O saco tem 40 kg, moça.

Fiquei atônita por uns minutos até meu cérebro-acostumado-com-potinhos-de-Bokashi-do-tamanho-de-um-copo-americano processar a informação.

— Moço, é tanto quilo que nem consigo calcular. Que tamanho tem o saco?
— Vem aqui.

Ele me fez dar a volta até a lateral do galpão – literalmente com fardos do chão ao teto –, onde sobrava espaço para uma só pessoa circular.

— Tá vendo aqueles sacos?
— Jisuis, é muita coisa!
— Aqueles são de 20 kg. É o dobro disso.

Pegou o espírito?
18 JUN 2014
categoria: Minhas raízes
tags: grama

Criança que brinca na grama cresce mais feliz

Como eu odiasse brincar de Barbie e minha irmã só tivesse uma irmã, ela abria uma exceção: sempre que a gente podia ficar no pátio do prédio, nos entretíamos brincando "de comidinha". Era uma diversão pouco ecológica, é verdade. Resumia-se a apanhar um punhado de matos de diferentes cores, quase sempre bem debaixo da placa de "É proibido pisar na grama", picá-lo e dividí-lo entre as várias panelinhas e potinhos de danoninho. Com algumas folhas, fazíamos suco acrescentando água; com outras, misturávamos barro e, depois de algumas horas de exposição a um sol esturricante, tínhamos bolos decorados com pedrinhas.

Dias atrás, estava eu fuçando na internet quando dei de cara com o catálogo de um spa holístico. Imagine a minha surpresa ao descobrir, vinte anos depois das brincadeiras de comidinha, que muita gente acredita que cair numa poça de lama pode deixar a pele mais macia. Melhor: tem mulher que chega a desembolsar até um salário mínimo para que alguém esfregue seu rosto com barro mole, "em movimentos suaves e circulares".

A julgar pela grande oferta de produtos similares em spas, há quem se deleite em ficar deitado de bruços, com pedras fumengantes colocadas em locais estratégicos das costas. Em muitos desses lugares, é possível tomar suco de clorofila por ínfimos R$ 15.

É um mundo estranho esse em que adultos bebem suco de grama e crianças brincam com celulares de verdade.
04 JUN 2014

3 dicas para melhorar as fotos de plantas

1. Aprendi com amigos fotógrafos um truque muito bom para fazer imagens amadoras parecerem sérias: clicar de perto coisas que você está acostumado a ver de longe e fotografar de muito perto aquilo que sempre está ao alcance dos olhos. Uso a dica em fotos prosaicas de plantas que encontro nas minhas andanças. Faça o teste numa bromélia, por exemplo: dá para ver o cálice tão de perto que até parece outra planta.

2. Acorde cedo. A luz do sol da manhã deixa as fotos com as cores mais vibrantes e sem aquele amarelo carregado do sol da tarde. Essa dica é especialmente importante para quem pretende fotografar ambientes externos – perto do meio-dia, as sombras ficam duras e criam grandes áreas negras nas imagens. Vale lembrar também que dias nublados costumam render fotos de flores bem mais interessantes do que os dias de sol forte logo cedo.

3. Flores caídas são um daqueles temas que todo fotógrafo amador acha o máximo, mas que os profissionais costumam considerar de uma cafonice sem tamanho. Enquanto você ainda está praticando, não tenha vergonha de ser cafona, repetitivo, sem criatividade. Com um pouco de treino, você mesmo vai buscar novas formas de enxergar o mesmo jardim.
14 MAI 2014
categoria: Dicas práticas

Saiba evitar mosquinhas na composteira

Não meço esforços para ter um pouco mais de verde ao meu redor. Já coloquei uma bombinha de aquário num bidê, enchi de água e plantei ninféias e alfaces d’água. Meu jardim aquático durou pouco. Quando as plantas se tocaram de onde estavam florescendo, amarraram pedras no caule e se jogaram da borda. Morreram afogadas.

Anos depois, comprei um pé de amora. A árvore ficou tão grande que encostava no teto. Hoje, ela mora num sítio e está apaixonada por um ficus. Tenho também um ex-bonsai de romã que me agradece todos os dias por não cortar suas raízes como fazem os japoneses malucos.

De todos meus exemplos verdes, o que me dá mais dor de cabeça é a composteira. Os sites que ensinam como transformar lixo orgânico em adubo raramente sugerem que você tente isso num apartamento. Descobri por que: “Durante a compostagem, fungos, bactérias, protozoários, minhocas, besouros, lacraias, formigas e aranhas decompõem as fibras vegetais”.

Até aí, tudo bem. Os bichos não vão querer sair do quentinho por nada. O problema é que ninguém fala que entre os “amigos invisíveis” estão montes de drosófilas, aqueles mosquitinhos que gostam de banana. Agora, minha fruteira fica escondida no armário e só fecho a geladeira depois de me certificar de que não prendi nenhuma drosófila lá dentro.

Antes que eu me armasse de inseticida e saísse pela casa borrifando mosquitos, voltei ao site em busca de um alento. “Não se preocupe: fazer compostagem não vicia, é apenas uma atividade apaixonante como todo aprendizado com a natureza.” Um agrônomo poeta! Era só o que me faltava.

Para você, que tenta produzir adubo num apartamento usando seus restos de cozinha, uma dica: mantenha a composteira sempre com uma boa camada seca por cima – mesmo que ela esteja fechada. Solteiros e casais sem filhos sabem bem o que estou dizendo: quem não produz uma quantidade grande de material a ser compostável acaba encontrando mais mosquinhas do que adubo quando abre a composteira. Os melhores materiais secos para isso são serragem, aparas de grama e folhas de jornal picadinhas (de preferência as preto e branca, que têm menos tinta). #ficadica
07 MAI 2014
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

Mato deixa qualquer casa com jeito de assombrada

“Ah, não, cortaram o mato!”

Pronto, era o fim de uma idéia que eu vinha acalentando há meses para escrever aqui. Uma pena, já tinha até convencido dois amigos a irem comigo durante a noite até a Casa. Terei que esperar uns 30 anos para tentar novamente realizar a Série A Casa. Droga.

Ela fica no número 314 de uma rua com nome de passarinho. É fácil reconhecê-la porque está entre duas mansões com labradores, guaritas e regadores automáticos. A Casa está numa fenda do tempo, algo entre 1900 e a Idade Média. Parece um castelo velho, com sua pequena clarabóia e a fachada de pedra manchada pela infiltração. Não há carro na garagem coberta de folhas secas. Não há placa de imobiliária. Uma luz na sala é a única prova de que, talvez, seres humanos morem lá. No bairro em que os muros têm cerca elétrica, uma cortina semi-cerrada e um pequeno portão de grade resguardam o lugar de olhares curiosos como o meu. E só. Ah, claro, e o mato: um matagal tão grande e descuidado que soterrou um triciclo, sufocou as flores e avança pela calçada. Escoteiros se perderiam naquele mato.

Meu passatempo predileto era tentar decifrar o enigma. Quem mora lá? Por que nunca se vê ninguém, quem sabe uma senhora gorda e diabética ou um casal de velhinhos esquecidos pelos netos? Como conseguem levar a vida enclausurados, sem falar com vizinhos ou receber ligações de telemarketing? E a pergunta crucial: por que raios não cuidam daquele jardim?

Foram tantas dúvidas que tramei uma novela só para a Casa. Primeiro, eu escreveria um post com suposições. Uma ex-guerrilheira mora lá. Acha que os militares ainda estão no poder e podem encontrá-la a qualquer momento. Por segurança, não mantém contato com a família. O mato alto serve para encobrir sua plantação de maconha.

O segundo passo seria ir com até lá, durante a noite, e amarrar flores vermelhas de celofane na ponta das folhas de mato – antes que me chamem de desordeira, isso se chama intervenção urbana e não vandalismo. Ela acordaria e, enfim, teria um jardim florido. Talvez aparecesse na janela, surpresa. Talvez até fosse ao portão. Talvez também mudasse de idéia sobre cultivar plantas ilícitas e adotasse um vira-lata.

Agora, está tudo perdido. Ao cortar o mato, o encanto se quebrou e minha série foi pro saco. É duro admitir, mas não se pode mais acreditar em bruxas. É a morte das fábulas. Vai ver, amanhã a Casa aparece pintada de branco. Uma tristeza.
30 ABR 2014
categoria: Minhas raízes

Mangueira se mata de desgosto de viver em vaso

Sou a favor da eutanásia em plantas terminais. É difícil aceitar que a sua begônia preferida precisa ser sacrificada ou que as orquídeas realmente não querem mais viver ao seu lado. Passar pelas quatro fases do luto é o mais duro.

Minha mangueira já tinha dado sinais de que não tinha mais apego a esse mundo. Primeiro, se trancou no banheiro e ligou o gás. Cheguei em casa a tempo de encontrá-la desfalecida, ainda no vaso – o sanitário. Levei-a de volta para a sala me negando a acreditar que uma árvore tão pequena como ela fosse capaz de atentar contra a própria vida.

Ela era uma planta determinada. Semanas depois, cortou os pulsos. Minha casa se encheu de folhas secas, uma cena realmente degradante. Fiquei com raiva. Como ela podia ser tão ingrata?

Três anos atrás, quando nos encontramos num orfanato, ela tinha 50 cm e três folhas mirradinhas. Tinha sido desacreditada pelos jardineiros. “Esta é uma mangueira perdida”, eles me disseram. Não quis ouvir. Levei-a para casa, dei adubo do bom e do melhor, comprei as terras mais caras e fertilizantes importados. Planejei seu futuro: ela seria uma árvore frondosa que, depois de tantos anos de dedicação intensa, alimentaria minha velhice com frutos carnudos e cheirosos. Nossos netos brincariam sob sua imensa copa. Seriam anos gloriosos.

Foi nessa época que começamos a nos desentender. Eu queria que ela fizesse Arquitetura, mas ela teimou em ir para o Jornalismo. Brigamos, fiquei um ano sem falar com ela. E agora, que estávamos indo às mil maravilhas, a mocinha me vem com esse dramalhão. Fiz que não era comigo quando ela ameaçou se jogar da janela. Ela não me pegaria com uma chantagem barata daquelas. E não pegou mesmo, mas fez pior: secou. Eu sabia que ela não estava feliz com sua forma, que se achava gorda e tudo. Só nunca imaginei que plantas fossem capazes de fazer greve de água.
23 ABR 2014
tags: abelha

Como evitar abelhas no bebedouro do passarinho

– Ele me ignora!
– Calma, minha filha, também não é assim.
– Me sinto rejeitada. Ele nem toca na minha comida…
Começou assim minha sessão terapêutica com o seu Daugas Friech. Por telefone, ele me consolava.
– Ele é assim mesmo, gosta de coisas espalhafatosas.
– Mais kitsch que o bebedouro que eu comprei? Impossível!
– Coloca banana, minha filha. Banana e mamão é tiro e queda.

Estava arrasada. Toda manhã eu vou até a janela conferir se a água está fresca e se comeram as sementes de girassol, mas o sabiá só me ignora. E isso porque tem uma praça enorme na frente da minha casa, um verdadeiro condomínio de aves. Nada de sabiá, nada de bem-te-vi, até as rolinhas me ignoram. Não sei em que restaurante eles devem estar indo para manter todos esses bicos cheios. De duas, uma: ou tem mais gente tentando atrair maritacas barulhentas e beija-flores fugazes, ou a bicharada não gostou do meu cardápio. Esses eram meus pensamentos até ontem, quando conversei com um santo passarinheiro, o ornitólogo Dalgas Frisch.

– Você mora em apartamento?
– Moro.
– Sabiá é bicho preguiçoso, só vai até o segundo andar.
– Ahhhh…
– Você quer beija-flor também, né?
– Seria ótimo! Eles também não chegam em apartamento alto?
– Coloca água com açúcar que eles vêem. Mas só de sexta a domingo.
– Por que?
– Senão, aparecem aquelas abelhinhas pretas.
– E…

Já estava imaginando que elas só trabalhassem em horário comercial, de segunda a sexta.
– Minha filha, quando você coloca mel na janela, elas avisam à colméia: “Aquela jornalista bonitinha colocou comida pra nós!”. Só que elas precisam de três dias para avisar a colméia inteira. Senão, não faz a ponte aérea.
– Ponte aérea?
– Sim, ponte aérea Colméia-Janela, ué.
– ?
– Essa nunca entra em crise, minha filha, nunca. Para despistar as abelhas, você coloca água com açúcar de sexta a domingo. Quando elas chegarem, na segunda, não tem mais. Elas vão insistir até terça e logo vão perceber que era alarme falso.
– Falha no Cindacta 1.
– Isso. Aí, na sexta você coloca de novo e até uma avisar a outra…
– Já é segunda!
Amei aquela idéia de frustrar abelhas. Contanto que os passarinhos apareçam, claro. Esta aeromoça aqui não é lá muito paciente.
15 ABR 2014
categoria: Dicas práticas
tags: abelha, horta

Tomate-cereja pega mais fácil que mato

Se você tem um cantinho ensolarado em casa, que tal cultivar tomates? A variedade cereja cresce rápido e é uma ótima opção para quem está dando os primeiros passos no ramo das hortas caseiras. Escolha sua bandejinha preferida no supermercado e, na hora de preparar a salada, tire as sementes de dois ou três tomatinhos. Lave-as em água corrente, usando uma peneira fina, e espere secar.

Após a sobremesa, encha um vaso de 30 cm de profundidade com terra de boa qualidade (de preferência enriquecida com adubo orgânico) e espalhe as sementes na superfície, tomando o cuidado de não deixá-las muito juntas. Cubra com uma camadinha fina de terra e mantenha úmido (não encharcado!), até que surjam os primeiros brotos.

Quando eles estiverem com aproximadamente três dedos de altura, você precisará de coragem para arrancar os menores e mais fracos, já que tomates necessitam de espaço (pelo menos 15 cm de distância) para se desenvolver. Regue a terra a cada dois dias e logo você poderá curtir as bolinhas vermelhas se formando.
09 ABR 2014
categoria: Dicas práticas
tags: joaninha

Por que é difícil ver vagalume nas capitais?

Procurar cigarra em tronco de árvore, colecionar casulo vazio de borboleta, fazer lanterna de vaga-lumes... só mesmo quem foi criado em pequenas cidades do interior é que ainda sabe o que são esses passatempos. Com a poluição, o uso indiscriminado de agrotóxicos e a cobertura vegetal cada vez mais escassa, encontrar esses insetos na cidade grande se tornou um desafio e tanto.

“Os vagalumes usam suas luzinhas para comunicação entre os sexos. A luz artificial noturna das lâmpadas de rua afeta sua reprodução”, lamenta Vadim Viviani, professor de Bioquímica da Universidade Federal de São Carlos.

Mais sorte que os pirilampos têm as joaninhas, as relações-públicas dos invertebrados: predadoras naturais de pulgões e cochonilhas, suas larvas são fornecidas por algumas faculdades e institutos para controle biológico em lavouras.
02 ABR 2014
categoria: Minhas raízes
tags: invasora

O incrível jardim que brota do cimento

Tiradentes é uma das duas únicas cidades lentas do Brasil – a outra fica no Sul. Aqui, uma slow city, pratica-se o slow food e o slow service. Aliás, tudo é slow: o sol aparece, mas demoooora, a comida chega, mas cuuuusta, e o dedinho de prosa, então, vixemaria, não acaba nunca. Com suas portas coloridas e paredes caiadas, Tiradentes parece um vilarejo perdido no tempo. Até charrete anda devagar, sempre com um vira-lata fazendo a escolta.

Com o tempo naquele chove-não-molha e as pousadas praticamente vazias, comecei a observar a cidade de um jeito bem slow. Tiradentes está sendo repovoada aos poucos, mas não por ex-empresários estressados e gente da capital. São as samambainhas que estão se enfiando em cada pórtico, vão, fresta, rachadura, friso, telha, trinca e buraquinho da cidade. Enquanto os corretores perdem tempo fazendo especulação imobiliária – há montes de casas há venda, as menorzinhas por R$ 700 mil –, as samambainhas vão se instalando sorrateiras. Sem fazer alarde. Bem mineiras, elas.